RBMA
participa e apóia as discussões acerca da legalidade
do extrativismo da samambaia preta e da promoção do
uso sustentável dos recursos da Mata Atlântica no Rio
Grande do Sul. Na oportunidade é apresentado o Programa Mercado
Mata Atlântica
Em 06 de abril de 2006 aconteceu em Maquiné, litoral norte
do RS, dois importantes eventos relacionados à sustentabilidade
da Mata Atlântica e das populações tradicionais
que vivem no seu seio: III Encontro da Samambaia Preta
e o I Seminário de uso Sustentável da Mata
Atlântica: geração de renda para a agricultura
familiar. Paralelo aos eventos acontecia também
a I Feira Local de Uso Sustentável da Mata Atlântica.
Compareceram aos eventos cerca de
270 pessoas entre produtores rurais locais e regionais, universidades,
organizações não governamentais e órgãos
de governo.
O coordenador do projeto Aliança
para o Consumo Sustentável, Sr. Marcelo Nunes participou
da abertura dos eventos representando o Sr. Clayton Lino, presidente
do CN – RBMA. Palestrando no período da tarde no I
Seminário de Uso Sustentável da Mata Atlântica:
geração de renda para a agricultura familiar.
Resumo:
III Encontro da Samambaia
Preta – Este evento é parte de uma seqüência
de discussões acerca da sustentabilidade da samambaia preta,
que é utilizada desde a década de 1970 pela população
rural de Maquiné/RS, hoje abastecendo o mercado brasileiro.
A legislação do RS
restringe o uso dos recursos extrativistas naturais da Mata Atlântica
à utilização para a subsistência das
famílias, não podendo o produto do extrativismo ser
comercializado, o que foi um avanço para promover a conservação
de importantes áreas de Mata Atlântica, intactas e
outras já antropizadas.
Pesquisa recente desenvolvida pelo
Núcleo de Estudos em Desenvolvimento Rural Sustentável
e Mata Atlântica – DESMA que engloba pesquisadores da
UFRGS, da FEPAGRO e da ONG Ação Nascente Maquiné
– ANAMA constatou a viabilidade socioambiental da extração
da samambaia preta usada pelos agricultores como importante fonte
complementar de renda.
Com os resultados da pesquisa está
se buscando promover uma regulamentação específica
na legislação ambiental do Estado, de modo a ser permitida
o uso e a extração da samambaia preta (não
de outros produtos extrativistas até que novos estudos possam
comprovar sua sustentabilidade) por comunidades como forma de promoção
do Desenvolvimento Sustentável na região pela geração
de renda.
Para fortalecer a necessidade de
revisão e adequação na legislação
foi produzida, durante os encontros, a Carta de Maquiné que
aborda pontos importantes acordados entre os participantes dos eventos.
I Seminário de uso
Sustentável da Mata Atlântica: geração
de renda para a agricultura familiar – Neste evento
foi apresentado o Programa Mercado Mata Atlântica e suas estratégias
de sustentabilidade. O Programa busca apoiar e valorizar o trabalho
de organizações de produtores, de micro e pequenas
empresas que atuam de forma a promover a sustentabilidade socioambiental
no Bioma Mata Atlântica.
A inovação do Mercado
Mata Atlântica é o Balcão Mata Atlântica
de Serviços e Negócios Sustentáveis que disponibilizará
consultorias e serviços especializados (legalidade jurídica,
gestão e administração, identidade visual,
logística dentre outros) aos empreendimentos cadastrados
de maneira a qualificar, garantir a avaliação de conformidade
(através da certificação e de outros processos)
e promover adequadamente os produtos no mercado.
Neste mesmo evento participaram da
mesa redonda Geração complementar de renda
para agricultura familiar: comercialização dos produtos
do extrativismo - representantes do Núcleo de Estudos
em Economia Alternativa Sr. Sebastião Pinheiro; Centro Ecológico
de Ipê Sr. André Luiz Gonçalves; Ação
Nascente Maquiné – ANAMA Sr. Dilton Castro e pelo projeto
Samambaia Preta Sras. Joana Bassi e Romarise Klein que é
uma agricultora extrativista (agroextrativista) e artesã.
I Feira Local de Uso Sustentável
da Mata Atlântica - trouxe produtores e produtoras
agroextrativistas que trabalham com a samambaia preta, palha e fibra
da banana, plantas medicinais, farmácia viva, instrumentos
musicais em madeira reciclada (já cadastrado no Balcão)
e também produtos alimentícios como queijo, farinha
de milho, pães diversos, feijão, cogumelos shitake
e outros produtos coloniais da região.
Marcelo Nunes
Coordenador Projeto Aliança para o Consumo Sustentável
Reserva da Biosfera da Mata Atlântica
Carta de Maquiné
Frente a atual discussão sobre
a adequação da legislação ambiental
para o uso sustentável dos recursos naturais no litoral do
Rio Grande do Sul, nós, organizações governamentais
e não-governamentais, movimentos sociais, acadêmicos
e agricultores extrativistas do município de Maquiné
e região, nos reunimos no dia 06 de abril de 2006, nessa
cidade, para debater a questão do extrativismo nas áreas
de Mata Atlântica do Rio Grande do Sul, em especial nas áreas
referentes à poligonal da Mata Atlântica, definidas
na regulamentação do artigo 38 do Código Florestal
Estadual.
Atualmente, percebemos que a produção extrativista
de espécies vegetais (palmeiras, cipós, plantas aquáticas,
samambaia, etc) tem papel preponderante na geração
de renda para os agricultores familiares do litoral norte do Estado.
É de maior destaque o extrativismo da samambaia-preta (Rumohra
adiantiformis (G. Forest.) Ching) que corresponde à principal
alternativa de renda para 2000 famílias do Litoral Norte
e a 50% da comercialização desta espécie no
Brasil. Além disso, a samambaia está na bolsa de valores
do país e é comercializada nos mercados europeus,
americanos e japoneses. Estudos realizados, desde 2000, pelo Projeto
Samambaia-preta (DESMA-PGDR / UFRGS e ANAMA) revelaram que esta
espécie é a principal alternativa de renda para os
agricultores familiares moradores das áreas de encosta do
município de Maquiné e demonstraram que as práticas
extrativistas realizadas pelos agricultores familiares são
sustentáveis do ponto de vista ambiental.
Porém, existe uma série de medidas restritivas na
legislação ambiental que impedem ou dificultam a extração
dessa espécie nas áreas em regeneração,
antigas áreas de roça tradicionalmente manejadas pelos
agricultores, o que contribui para tornar bastante precária
as condições de reprodução social dos
agricultores.
É preciso deixar claro que não questionamos a pertinência
ou a validade desse conjunto de regras legais para a conservação
florestal das áreas da Mata Atlântica, nem pretendemos
ampliar os impactos negativos que a exploração ilegal
de espécies florestais em larga escala costuma trazer. Portanto,
firmamos compromisso em torno da questão da regulamentação
da extração sustentável e da comercialização
da samambaia-preta em áreas de vegetação secundária
(capoeira) nos lotes familiares, defendendo uma resolução
rápida e eficaz para esse debate por parte dos órgãos
governamentais e legislativos.
Esperamos assim contribuir para garantir especialmente condições
econômicas e sociais mais favoráveis para os principais
interessados na discussão, que são os agricultores
familiares do litoral norte gaúcho, e para levar adiante
a discussão sobre o desenvolvimento sustentável da
região, respeitando os conhecimentos culturais das populações
locais e a conservação das áreas de Mata Atlântica.
Dessa forma, o atendimento dessa proposta é a principal meta
das pessoas, dos movimentos e das organizações que
subscrevem este documento.
Maquiné - RS, 06 de abril
de 2006.
Os. Assinam a carta 200 pessoas.
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