| Mercado
de orgânicos está sendo qualificado
Impulso ao mercado de orgânicos
Fernando Lopes
16/06/2006
Após meses em discussão,
o decreto que regulamenta a Lei 10.831 (sancionada em dezembro de
2003) e estabelece parâmetros para o mercado brasileiro de
orgânicos deverá ser assinado pelo presidente Lula
nos próximos dias. Consideradas fundamentais para o desenvolvimento
do segmento no país, as regras tendem a estimular o aumento
da produção e o barateamento desses alimentos, cujos
preços elevados ainda restringem o consumo no país
às classes de maior poder aquisitivo.
Carla Romero/Valor
Segundo Miyao, do Pão de Açúcar,
diferença de preços entre orgânicos e convencionais
vem caindo nos últimos anos.
Segundo informações
da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Agricultura Orgânica
- vinculada ao Ministério da Agricultura e formada por representantes
de órgãos públicos, produtores, empresas e
ONGs -, o texto do decreto está em fase final de ajustes
na Casa Civil. Não há uma data definida para a assinatura
de Lula, mas a expectativa é que uma cerimônia para
tal seja realizada na 2ª Semana dos Alimentos Orgânicos
(de 23 a 30 de junho).
Uma vez assinado o decreto, a regulamentação
entra em vigor e os agentes desse mercado terão dois anos
para se adequar a ela. Além de definições sobre
os princípios da agricultura orgânica, as regras norteiam
boas práticas da produção, especificidades
da certificação de um alimento orgânico, credenciamento
das certificadoras que farão esse trabalho e fiscalização,
entre outros pontos (ver http://www.agricultura.gov.br/).
"No máximo em 2009 estará
tudo certo. O processo é longo. Na Europa, a lei, de 1992,
só passou a ter efeito em 1995", afirma Alexandre Harkaly,
vice-presidente executivo do Instituto Biodinâmico (IBD),
empresa brasileira sem fins lucrativos que iniciou seus trabalhos
de certificação em 1990 e hoje conta com cerca de
700 clientes. Harkaly lembra que, após a assinatura do decreto,
as instruções normativas relativas ao tema também
terão de seguir para consulta pública por até
60 dias.
O decreto tomou por base as normas
para orgânicos contidas no Codex Alimentarius, criado em 1963
pela Agência de Agricultura e Alimentação (FAO)
e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para Harkaly, contudo, isso não significa que ele é
infalível. "O mercado brasileiro é diversificado
e é preciso cuidado para não excluir segmentos. Não
se pode deixar de fora o pequeno produtor e são necessárias
equivalências com regras de outros países".
Não há dados consolidados
sobre o mercado de orgânicos no país, mas estima-se
que ele movimente de US$ 150 milhões a US$ 300 milhões
por ano (incluindo exportações), ante vendas globais
de US$ 40 bilhões. Com o extrativismo sustentável
de culturas como castanha-do-Pará e palmito, a área
plantada supera 6,5 milhões de hectares. Sem o extrativismo,
a área é calculada em 500 mil hectares. Para Harkaly,
as exportações brasileiras de orgânicas somam
de US$ 100 milhões a US$ 110 milhões, e o mercado
total alcança pouco mais de US$ 150 milhões.
Incipiente, o mercado confia na regulamentação
da lei para deslanchar no Brasil, onde o potencial é enorme.
E com os esperados ganhos de escala e redução de custos,
inclusive de transporte, viria a queda de preços. "Para
o aumento das vendas no mercado interno, o preço ainda é
o principal problema. Mas isso é uma questão de escala",
reforça o executivo do IBD. Ainda que as principais redes
varejistas do país garantam que em suas gôndolas a
diferença de preços entre produtos orgânicos
e convencionais venham diminuindo, há muitos casos em que
ela supera 100% - e isso, segundo produtores, "assusta"
o consumidor.
O Valor visitou esta semana uma loja
de uma das grandes redes varejistas na capital paulista e constatou
que o pacote de 500 gramas do tomate orgânico saía
por R$ 5,20, enquanto o convencional estava a R$ 1,99 - o quilo.
Já uma conhecida marca de suco de laranja orgânico
era vendida por R$ 8,10 o litro, ante R$ 3,39 da bebida convencional.
E o pacote de 250 gramas do café arábica premium orgânico
custava R$ 5,15, contra R$ 2,33 de uma marca de arábica premium
convencional.
Pão de Açúcar,
Carrefour e Wal-Mart reconhecem que os preços coíbem
o aumento das vendas de orgânicos, crêem que a regulamentação
da lei aliviará as diferenças e dizem que elas ainda
são grandes sobretudo por conta de escala e logística.
"A diferença vem caindo nos últimos anos. Superava
100% e hoje, em média, está entre 25% e 30% no caso
de frutas, verduras e legumes [FLV]", diz Leonardo Miyao, diretor
de FLV do Grupo Pão de Açúcar - que conta nas
lojas de sua bandeira em bairros mais abastados das grandes cidades
do país com 100 itens orgânicos.
Mesma estratégia, inclusive
com a concentração de produtos em espaços comuns,
segue o Carrefour, que tem em seu portfólio 200 itens. "Os
preços incomodam a cadeia, por isso sempre fazemos promoções
para incentivar a venda de um produto específico durante
toda uma semana, por exemplo. O orgânico é mais caro
porque falta produtividade no campo e a logística, pela falta
de escala, chega a ser dez vezes mais cara", afirma Arnaldo
Eijsink, diretor de agronegócios da rede no país.
"No Brasil, o consumo é
limitado às classes A e B, mas nos tornamos referência
mundial para o grupo pelo número de itens vendidos",
diz Paulo Oliveira, diretor de perecíveis do Wal-Mart. Nas
lojas do Sudeste (incluindo Curitiba) da bandeira, há 150
itens à disposição. Na semana dos orgânicos,
as três redes informam que cortarão margens de lucro,
farão promoções e promoverão atividades
para incentivar as vendas. Com isso, espera-se salto de pelo menos
50%. Para os produtores, o ideal é que as ações
fossem permanentes.
(Colaborou Alda do Amaral
Rocha) |