Biblioteca Digital: Na
briga pela Ciência Aberta
A biblioteca eletrônica SciELO (sigla em inglês para
Scientific Eletronic Library Online) comemora dez anos em abril
com a inauguração de um novo portal e um índice
próximo de 7 milhões de acessos por mês.
Um número impressionante,
de acordo com Rogério Meneghini, coordenador científico
da primeira base de artigos científicos produzidos no país
e publicados em revistas científicas brasileiras.
Criada para aumentar a visibilidade
nacional e internacional da ciência brasileira, a biblioteca
inclui hoje periódicos de outros nove países latino-americanos,
além de Portugal e Espanha.
Fruto de uma parceria da FAPESP
com a Bireme (Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação
em Ciências da Saúde), instituição
vinculada à Organização Pan-Americana de
Saúde (Opas) e à Organização Mundial
da Saúde, o projeto SciELO também conta com o apoio
e a parceria do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq) desde 2002.
Para a Agência FAPESP,
Meneghini contou como foi criar a SciELO e defendeu a “ciência
aberta”.
Agência FAPESP - Por que criar uma
base de informação científica brasileira?
Rogério Meneghini - Quando consegui que
a FAPESP oferecesse à comunidade científica acesso
ao banco de dados do ISI [Institute for Scientific Information],
a mais importante base de artigos científicos internacional,
comecei a pesquisar os artigos que resultaram de projetos apoiados
pela Fundação para entender como era o fluxo dessa
informação científica no país. Eu
estava interessado em criar uma base de dados bibliográficos
e cienciométricos, pois acreditava que isso significaria
dar um passo além do que era possível com a base
ISI. Não havia muito conhecimento sobre o impacto da produção
brasileira.
Agência FAPESP - Como a idéia
se concretizou?
Meneghini - Falei sobre meu plano de criar a
base com Abel Packer, diretor da Bireme, e Lewis Greene, pesquisador
da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto e editor
chefe de uma das melhores revistas científicas do Brasil,
o Brazilian Journal of Medical and Biological Research. Abel acreditava
que a base que eu propunha também deveria trazer conteúdos
integrais dos periódicos, ao mesmo tempo em que eles eram
publicados on-line. Ele me convenceu que as duas coisas, a base
de dados e os conteúdos integrais, se somavam. Depois de
muitas discussões, preparamos um modelo e um projeto, que
foi aprovado pela FAPESP. Começamos com uma escala piloto
de oito revistas brasileiras bem visíveis, de várias
áreas, e contávamos com uma participação
ativa de seus editores.
Agência FAPESP - Como a SciELO evoluiu
nestes dez anos?
Meneghini - A biblioteca cresceu muito e o processo
de publicação tornou-se cada vez mais trabalhoso
e caro. Devem existir perto de quatro mil revistas científicas
no país e a indexação na SciELO virou uma
meta para todas elas. O assédio de editores é muito
grande. Nosso padrão de avaliação de periódicos
é muito restringente, mas também muito transparente.
Até porque um dos nossos objetivos é melhorar o
nível desses periódicos, o que já está
acontecendo.
Agência FAPESP - A infra-estrutura
também deverá crescer?
Meneghini - Em breve teremos 200 periódicos
e já atingimos a marca de quase 7 milhões de acessos
também devido ao sucesso de sites de busca na internet
como o Google. Em breve faremos o lançamento de uma nova
plataforma, com novo projeto gráfico, melhor navegabilidade,
dados estatísticos que podem ser obtidos gratuitamente
e com facilidade e a possibilidade de submissão on-line
de artigos a todas as revistas indexadas na base.
Agência FAPESP - Por que a SciELO
passou a publicar revistas de outros países?
Meneghini - Os contatos da Bireme, instituição
que difunde informação sobre saúde para a
América Latina e Caribe, estimularam muito a entrada de
outros países. No começo, pensamos em publicar apenas
os periódicos feitos no Brasil. Mas num certo momento Abel
Packer e eu percebemos que poderíamos ampliar. Começamos
a fazer palestras em outros países para apresentar o projeto.
O primeiro a entrar foi o Chile, que hoje tem 61 revistas na base.
Aí vieram outros. Decidimos então não tomar
conta dos sites de cada país para não tirar o estímulo
que eles tinham. Todos usam a mesma metodologia e a mesma plataforma,
mas têm um site próprio. Fizemos também o
www.scielo.org,
que reúne todas as revistas de todos os países participantes.
Agência FAPESP - Quem financia a
manutenção em cada país?
Meneghini - No Brasil, embora tenha alcance nacional
e seja reconhecido como um bom projeto, 80% dos custos da SciELO
ainda são pagos pela FAPESP. O CNPq entra com 15% e o restante
vem principalmente da Opas. Mas precisamos colocar o projeto no
contexto do financiamento nacional, pois um dos problemas que
temos a curto prazo é a obtenção de recursos
para manter e ampliar a base. Todos os países que fazem
parte da SciELO buscam seus próprios recursos e têm
problemas para consegui-los.
Agência FAPESP - A publicação
em português é um entrave para a divulgação
da ciência brasileira no mundo?
Meneghini - A língua é um problema. Escrevi,
com Abel Packer, um artigo sobre esse assunto para a edição
de fevereiro da revista EMBO Report [da European Molecular Biology
Organization], do grupo Nature. Neste artigo, discutimos bastante
a questão do inglês na ciência e da ciência
na língua de cada país. Precisamos lidar com uma
verdade: o inglês é a língua científica
no mundo atual. Por esse motivo temos estimulado a publicação
de artigos científicos em inglês.
Agência FAPESP - O acesso à
produção de ciência na América Latina
depende disso?
Meneghini - Eu sonho muito alto, acredito que é
possível existir uma cultura bilíngüe em termos
de ciência no Brasil. Eu também discuto essa possibilidade
no artigo que citei. Mas a maior parte dos pesquisadores em atividade
no Brasil ainda procura publicar em inglês. Colocar para
eles a incumbência de fazer o mesmo artigo em português,
o que seria bom para todos os brasileiros, é fazer uma
exigência draconiana. Eu continuo pensando em estimular
isso, mas, por enquanto, é só um projeto.
Agência FAPESP - Quais são
os planos para o futuro da SciELO?
Meneghini - Continuar na briga pela ciência aberta,
de disponibilização gratuita de artigos científicos.
Há uma origem ética nisso, bem recente, do início
deste século. A SciELO nasceu como ciência aberta,
ninguém paga nada para acessar os artigos que ela publica.
E não poderia ser de outra forma porque são instituições
públicas que dão suporte ao projeto. No nível
internacional, as revistas são muito mais comerciais, seus
publishers cobram, e cobram bem. Há uma grande discussão
sobre o sentido de se fazer isso. Pela origem da SciELO e por
ela ser atualmente a segunda maior base do mundo de acesso aberto
continuamos a discutir possibilidades para a ciência aberta.
Essa é uma questão que considero muito importante.
Por Fernando Cunha
Agência FAPESP (26/03/2007)