Darwin e Ciências
Sociais
Qual a pertinência da Teoria da Evolução,
de Charles Darwin (1809–1882), para as ciências sociais
e econômicas? Esta é a questão que permeia
o Ciclo Temático Evolução Darwiniana e Ciências
Sociais, que começou na última quinta-feira (22/03)
e prossegue ao longo do ano com seminários mensais.
Idealizado pelo economista José Eli da Veiga,
da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade
(FEA) da Universidade de São Paulo (USP), o evento foi
realizado pelo Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa)
da FEA e pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP).
De
acordo com Veiga, a pertinência dos conceitos darwinianos
para as ciências sociais é discutida há muito
tempo, mas veio adquirindo uma dimensão cada vez mais controversa.
“Minha preocupação principal
é a economia. A ciência econômica está
passando por uma mudança paradigmática e está
claro que ela será muito diferente ao longo deste século.
Uma das principais mudanças é que cada vez mais
ela leva em conta a teoria da evolução”, disse
ele à Agência FAPESP.
Veiga afirmou que, enquanto alguns economistas
consideram que a teoria evolucionista é importante para
aspectos específicos da economia, como a evolução
tecnológica, outros acreditam que sua influência
vai muito mais longe, transformando toda a teoria econômica.
“Cada vez mais há cientistas pensando
nessa perspectiva. A idéia é que o ciclo de seminários
nos ajude a esclarecer mais sobre essa controvérsia. A
princípio tendo a apreciar a contribuição
da universalidade da teoria da evolução às
ciências sociais. Mas poderemos avaliar a questão
bem melhor após os debates”, disse.
Para o professor, uma grande contribuição
que o ciclo poderá trazer é aprofundar o conhecimento
interdisciplinar sobre a própria teoria de Darwin. “A
teoria da evolução é amplamente comentada,
mas, ao mesmo tempo, é profundamente desconhecida”,
afirmou.
De acordo com Veiga, em 1964 o biólogo Ernest
Mayr (1904-2005) alertou que a estrutura conceitual do darwinismo
é um sistema filosófico. Mas foram necessárias
três décadas para que se começasse a reconhecer
nela uma teoria geral dos sistemas evolutivos como categoria específica
dos sistemas adaptativos complexos.
Confluência científica
Durante o ciclo, as mesas sempre contarão
com um pesquisador das ciências naturais e outro das sociais.
No primeiro seminário da série, participaram o biólogo
Ricardo Waizbort, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz),
e o sociólogo Carlos Alberto Dória, da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp).
Em sua exposição, Waizbort procurou
mostrar que o tema do seminário não trata apenas
de uma "invasão" da biologia em domínios
sociais e culturais.
Segundo ele, está em curso um processo bem
mais amplo, de duas fortes tendências: a psicologia evolutiva,
herdeira da controvertida sociobiologia, e o programa de pesquisa
dos memes, uma investigação ainda incipiente que
pretende tratar a informação cultural e as próprias
tradições como complexos de idéias que se
reproduzem via cérebros humanos.
Dória corroborou a idéia de que o
darwinismo é mal conhecido, apesar de bem difundido. Segundo
ele, pelo menos até a década de 1970 os cientistas
sociais tinham uma leitura enviesada da obra de Darwin, influenciada
pelo filósofo Herbert Spencer (1820-1903).
Para vencer o obstáculo que obscurece a
teoria darwinista, Dória recomenda que os cientistas sociais
assumam o debate em torno de questões-chave, como a ecologia,
a criação da linguagem e da consciência e
o tema dos instintos sociais.
Por Fábio de Castro
Agência FAPESP (26/03/2007)