Clayton
F. Lino: Entre as Matas e as Metrópoles
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Foto: Danilo Costa |
Buscando a alma das cidades onde vive e trabalha
– Iporanga, São Paulo e Paris –, Clayton Lino
valoriza, na entrevista Entre as matas e as metrópoles,
os trajetos do cotidiano, que considera inesgotáveis viagens
turísticas.
Clayton Lino, arquiteto, espeleólogo, fotógrafo
profissional e especiasta em Patrimônio Ambiental Urbano
e Manejo de Áreas Naturais Protegidas. Foi Diretor Geral
do Instituto Florestal de São Paulo. É atuante em
várias ONGs, como a Fundação SOS Mata Atlântica
e a Sociedade Brasileira de Espeleologia, presidente por dois
mandatos. Fotógrafo da 1ª expedição
Brasileira à Antártida (Barão de Teffé,
1982-83), é presidente do Conselho Nacional da Reserva
da Biosfera da Mata Atlântica e Coordenador da Rede Brasileira
de Reservas da Biosfera. Participa de grupos de trabalho internacionais
da UNESCO e é membro da WPC/Brazil da IUCN.
Arquiteturismo: Aonde você vai a
turismo?
Clayton F. Lino: Buscando um equilíbrio,
entre São Paulo, Iporanga (no vale do Ribeira) e Paris.
Tenho o prazer de ser turista sempre nesses lugares, como se fosse
a primeira vez. Trabalho em 3 dos melhores lugares do mundo: a
sede da reserva da Biosfera da Mata Atlântica, em São
Paulo, no Parque Estadual da Cantareira, junto ao Horto Florestal;
em Iporanga no coração da mata atlântica e
como a Reserva da Biosfera é ligada à Unesco, vou
para reuniões em Paris, naquele predinho corbusiano. Estas
viagens obrigatórias como Paris, Iporanga e São
Paulo, dentre outras, são inesgotáveis criam relações
turísticas diferenciadas. São viagens em busca da
alma destas cidades, que são parte da minha alma também.
Arquiteturismo: Você não gosta
mais de viajar como turista?
Clayton F. Lino: Adoro, curto todos os cartões
postais também, mas não pode ficar só neles.
Viajo muito, conheço mais de 60 países e o Brasil
quase todo, turismo é criar relações e com
a experiência sair enriquecido.
Arquiteturismo: Então como é
ser turista em São Paulo?
Clayton F. Lino: Eu “viajo” em São
Paulo. A gente não usa São Paulo.
Cada um tem uma cidade pequena dentro de si, que
se sobrepõe com as de seus amigos em alguns pontos de encontro
como os cinemas ou os restaurantes. Há pontos de encontro
que são metropolitanos, como a avenida Paulista ou o Ibirapuera.
O centro da minha cidade em São Paulo é a Paulista
e o umbigo é a marquise do Ibirapuera, com feira, skate,
patins, dança, MAM, Bienal, Museu Afro Brasil.
Saio por São Paulo nos fins de semana e
busco direções que não conheço, para
ver e fotografar. Gostei tanto do que vi que estou pretendendo
fazer um livro sobre isto.
Arquiteturismo: O que há de tão
diferente?
Clayton F. Lino: A cidade perdeu a geografia não
tem morro, vale e rio, é muito difícil de enxergá-la,
faltam referências, estudos das bacias, o morador tem que
se re-conectar com a geografia e sua história. Eu posso
dizer que moro nas barrancas do córrego do Itororó,
próximo à avenida 23 de Maio, a região era
o caaguaçú, a mata grande, que só tem o Trianon
como remanescente.
Gosto de circular nas diferenças, não
gosto das coisas mornas, é melhor ir para o quente. Você
vê o povo da rua se lavar nas fontes que brotam dos morros,
alguns também lavam os carros nas águas naturais
da cidade. A comunidade guarani que ainda sobrevive em São
Paulo é um exemplo da força deles, que tem religião,
língua própria e jeito de ver o mundo; estão
lá há 5 séculos na mesma cidade, precisam
de maior atenção, são guardiões da
cultura.
Arquiteturismo: Depois de mais de 30 anos
você ainda é turista em Iporanga, no vale do Ribeira?
Clayton F. Lino: Iporanga é uma cidade das
mais antigas do Brasil. A cidade, o mato, o rio Ribeira é
o dominante, a natureza é o dominante com uma harmonia
muito grande com sua história.
O PETAR – Parque Estadual Turístico
do Alto do Ribeira – onde fui o primeiro diretor, que tem
mais de 250 cavernas é o coração da Mata
Atlântica conservada no Brasil.
Lá tem regiões onde sobreviveram
muitas comunidades tradicionais, é o maior índice
de Quilombos de São Paulo. Há relações
diferentes com culturas, que estão sempre ameaçadas
de extinção, é uma “riqueza frágil”,
porém é forte porque sobreviveu 500 anos. As formas
de construir as casas, as roças, a convivência com
a mata, não foram extintas.
Arquiteturismo: E em Paris (covardia!)
como é ser um turista freqüente?
Clayton F. Lino: Conheci as cavernas e a Mata Atlântica
no vale do Ribeira em 1972, o que acabou mudando a minha vida,
portanto Iporanga, via São Paulo, me levou a Paris.
O programa da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica
é vinculado à Unesco, há 5 anos vou lá
regularmente às reuniões das Comissões de
Programas.
Paris é um lugar de síntese da Terra,
de cultura em equilíbrio, muito agito, mas em equilíbrio,
há lugares interessantes no mundo, mas com menos diversidade
e com mais conflitos.
Para falar algo bem diferente que faço quando
estou na capital francesa, uma amiga botânica brasileira,
Fatia Coutte, que trabalha com educação ambiental,
me conduz a pequenas praças que são jóias
de paisagismo; o principal não é só época
e a história, mas a manutenção, são
cuidadas por famílias de viveiristas.
Encanto-me com as florestas urbanas, como o parque
de Bagatelle, que intercalo com subidas aos locais mais elevados,
como a torre Eiffel, para não fugir do cartão postal.
Nós tivemos grandes influências francesas
em nossos jardins, e o novo paisagismo brasileiro agora influencia
jardins franceses.
Mais informações:
www.vitruvius.com.br/arquiteturismo/