Exportações
para China - Gigante de pés de barro
“A
próxima grande crise econômica acontecerá
na China, que, ao contrário do que se diz, não se
tornará a maior potência mundial.” A previsão
foi feita categoricamente por Pao-yu Ching, professora emérita
do Marygrove College, em Michigan, nesta quarta-feira (11/7),
durante a 59ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira
para o Progresso da Ciência (SBPC), em Belém.
De acordo com a economista chinesa radicada nos
Estados Unidos há 30 anos, o avassalador crescimento econômico
chinês não é sustentável e, apesar
dos números positivos na última década, o
país está fora de controle.
“A economia mundial está entrando
em um período de baixo crescimento. A China, dependente
das exportações, sofrerá um impacto violento.
Eu realmente acho que estamos na iminência de uma crise
econômica capitalista talvez sem precedentes”, disse
Pao-yu à Agência FAPESP.
Segundo ela, o processo de restauração
capitalista na China deixou uma pequena parte da população
em situação muito boa, mas as condições
sociais da esmagadora maioria, especialmente camponeses, são
desastrosas.
“A demanda doméstica é muito
pequena, porque as pessoas não têm poder de consumo.
Por essa razão, há uma capacidade excessiva em várias
indústrias, como eletrodomésticos, automóveis
ou bicicletas. Muitas delas estão com capacidade tão
grande que não podem mais continuar a investir. E, se elas
não investem, a economia desaquece”, destacou.
Crise em Todas as Áreas
O desenvolvimento capitalista na China, desde a
reforma de 1979, trouxe boas estatísticas à macroeconomia.
Mas, desde então, saúde, educação,
habitação e o próprio trabalho se tornaram
mercadorias, impedindo o acesso da população com
salários baixos.
“As condições sociais na China
são muito ruins e ficarão piores. Há muita
gente trabalhando no setor informal, em cenário parecido
com o do Brasil. O desmantelamento das comunas em 1984 causou
um êxodo rural incessante. Na cidade, os camponeses não
encontram meios de subsistência – não têm
renda, nem escolas, nem acesso a hospitais. A crise atinge todas
as áreas, inclusive o meio ambiente”, afirmou.
Para Pao-yu, as previsões de que o crescimento
econômico da China levará o país a ser uma
potência mundial que concorrerá com os Estados Unidos
são uma ilusão. “Minha visão é
completamente oposta. Em 1994 e 1995, os tigres asiáticos
estavam crescendo muito rapidamente, mas na Malásia, na
Tailândia ou nas Filipinas todos sabem que a população
ainda sofre com a crise de 1997.”
De acordo com a economista, a China, depois de
entrar na fase de desenvolvimento capitalista, tornou-se economicamente
semelhante a qualquer outro país pobre, mas sem liberdade
política. Ou seja, o resultado para a maioria da população
foi o pior dos dois mundos.
“Antes havia baixos salários, mas
os preços também eram pequenos, porque as necessidades
básicas não eram confundidas com mercadorias. Isso
diferenciava a China dos outros países pobres. Nesses países
há fome não porque haja escassez de comida, mas
porque os pobres não têm recursos para comprar alimentos.
A China agora é assim”, destacou.
Segundo Pao-yu Ching, toda a situação
crítica da China não é evidente em boa parte
das cidades. “Se você for para lá agora, a
situação pode até passar despercebida, em
meio à modernidade das cidades. Cerca de 20% da população
vive com fartura e as estatísticas mostram que o país
está bem. Mas se trata de uma economia unicamente exportadora”,
disse ela.
Por Fábio de Castro
Agência FAPESP (12/07/2007)