Amazônia
em pé vale muito mais
Segundo
o Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Produto Interno
Bruto (PIB) da Amazônia gira em torno de R$ 114 bilhões
anuais, ou cerca de 6% do PIB brasileiro. Desse total, a atividade
agropecuária é responsável por R$ 16,6 bilhões
e os produtos e serviços originários da biodiversidade
da região respondem por R$ 9 bilhões.
Os dados foram apresentados por Charles Roland
Clement, pesquisador do Departamento de Ciências Agronômicas
do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), na
mesa-redonda “Valor econômico da floresta em pé”
durante a 59ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira
para o Progresso da Ciência (SBPC), em Belém.
“Temos a maior floresta do mundo, que representa
60% do território nacional e é supostamente considerada
o ouro verde do futuro, mas sua biodiversidade contribui em menos
de 1% para o PIB brasileiro”, disse Clement. "O Brasil
precisa valorizar as novas vocações econômicas
e ambientais da floresta amazônica e garantir a manutenção
de seus recursos naturais", apontou.
O pesquisador do Inpa chamou a atenção
para a importância da agricultura tradicional – prática
essencialmente sustentável em que o pequeno produtor usa
tecnologias para recuperar o solo após o cultivo –
para o aumento da participação da biodiversidade
da floresta no PIB brasileiro. A agricultura tradicional na Amazônia
é composta basicamente por frutas exóticas, hortaliças,
raízes nativas, plantas medicinais, criação
de animais e outros produtos florestais não madeireiros.
Nesse contexto, destaca-se o açaí
(Euterpe oleracea), considerado um produto florestal não
madeireiro cujo mercado tem crescido exponencialmente nos últimos
anos. A população do Pará, com pouco mais
de 7 milhões de habitantes, é a maior consumidora
de açaí do mundo. Hoje, de acordo com Clement, são
mais de 10 mil quilômetros quadrados de açaizais
estrategicamente localizados entre Belém e Macapá,
com cadeias de comercialização e exportação
muito bem elaboradas, centros de pesquisa e desenvolvimento eficientes
e recursos humanos especializados no manejo do fruto.
“Somente os habitantes de Belém consomem
400 toneladas do fruto por mês, enquanto a soma do consumo
dos outros estados brasileiros é de 40 toneladas. O açaí
é um fenômeno recente que dificilmente será
replicado em outras regiões ou países, devido às
condições únicas de plantio no Norte brasileiro”,
apontou Clement.
Para o pesquisador, o açaí, impulsionado
pelas exportações a países da Europa e da
Ásia, é um bom exemplo de aproveitamento da biodiversidade
da Amazônia, sem necessariamente ter que derrubar árvores.
“Derrubar a floresta não é
e não pode ser mais lucrativo do que o desenvolvimento
da Amazônia com a floresta em pé. O problema é
que não há investimentos suficientes para a agregação
de novos valores econômicos à altura da biodiversidade
da região”, lamentou.
Plantas do futuro
Samuel Almeida, pesquisador
da Coordenação de Botânica do Museu Paraense
Emílio Goeldi (Mpeg), apresentou uma lista de “plantas
do futuro”, elaborada em parceria com o Projeto de Conservação
e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica
Brasileira (Probio), do MMA. A lista inicial indicou 2.150 espécies
florestais não madeireiras com algum tipo de uso econômico,
incluindo plantas aromáticas, medicinais, alimentícias,
fibrosas e oleaginosas.
“Fizemos uma ampla triagem
para eliminar duplicidade de informações e identificar
espécies que não faziam parte da flora amazônica.
A lista final, que está disponível no site do Museu
Goeldi, é composta por 73 espécies que estão
prontas para se tornar oportunidades de negócio”,
afirmou. O açaí é uma delas.
Almeida também apresentou
dados da fruticultura no Brasil, que registra uma produção
anual de cerca de 36 milhões de toneladas em uma área
de 2,3 milhões de hectares. O setor emprega 5,6 milhões
de pessoas – 27% da mão-de-obra agrícola nacional
– e gera de dois a cinco postos de trabalho na cadeia produtiva
por hectare cultivado.
Os bionegócios na Amazônia
também não foram esquecidos. Segundo Almeida, existem
atualmente 891 empreendimentos em sete estados da Amazônia,
responsáveis por cerca de 1,2 mil produtos e serviços
prestados por pequenas e médias empresas, associações
de produtores, artesãos e cooperativas, em setores como
os de alimentos, fármacos, essências, turismo, artesanato
e madeira.
Para conhecer a lista de espécies
de plantas do futuro do Norte do país, clique
aqui (mhtml:http://www.museu-goeldi.br/sobre/Lista_especies_animais/Lista%20de%20Espéciesdo%20Futuro%20%20Selecionadas%20-%20Prioritárias%201%20-%20Região%20Norte.mht).
Por Thiago Romero, de Belém
Agência FAPESP (12/07/2007)