Dispersão Vegetal
Transoceânica
Devido
ao alto poder de adaptação e dispersão de
suas sementes, a sumaúma (Ceiba pentandra), árvore
originária da América Tropical que chega a atingir
50 metros de altura, saiu da Amazônia, cruzou o oceano Atlântico
e colonizou a África.
A constatação foi feita por pesquisadores
do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e
do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical, no Panamá.
Os resultados do estudo foram publicados na revista Molecular
Ecology.
O trabalho começou em 2000 com a análise
do material biológico de 54 exemplares de sumaúma
coletados em diversos pontos da Amazônia brasileira, no
Equador, no Panamá, na Guiana Francesa, na Costa Rica,
no México, em Porto Rico e em três países
da África: Camarões, Gabão e Gana.
Foram analisadas, para cada indivíduo, seqüências
do DNA extraído do cloroplasto, organela responsável
por carregar a clorofila e que contém informação
genética materna, bem como do núcleo celular, que
contém informação genética do pai
e da mãe.
“Com base em marcadores genéticos
universais, amplificamos regiões de interesse dos genomas
do núcleo celular e do cloroplasto da sumaúma”,
disse Maristerra Lemes, pesquisadora do Laboratório de
Genética e Biologia Reprodutiva de Plantas do Inpa e uma
das participantes do estudo, à Agência FAPESP.
Em seguida, ao sair em busca de mutações
genéticas nos exemplares analisados da sumaúma,
os cientistas encontraram poucas divergências entre os do
continente americano e africano.
“Identificamos seis haplótipos, que
são os tipos de variantes encontrados a partir das mutações
da seqüência de DNA, utilizando o marcador genético
do núcleo”, explicou Maristerra. Isso quer dizer
que, nesse caso, os 54 indivíduos se distribuíram
em seis “categorias genéticas”. “Quando
analisamos o genoma do cloroplasto, o número de haplótipos
encontrados foi de apenas dois.”
“Com base em estimativas das taxas de mutação
para esses marcadores genéticos publicados na literatura
científica, foi possível estimar o tempo de divergência
entre as populações de sumaúma, o que ocorreu
muito recentemente, provavelmente entre 3 e 5 milhões de
anos atrás”, apontou.
Estima-se que os continentes sul-americano e africano
tenham se separado há cerca de 96 milhões de anos.
“Com base em nossos dados genéticos, a hipótese
mais plausível para a colonização da sumaúma
no continente africano é a dispersão da espécie
a longa distância pelo oceano”, disse Maristerra.
O estudo sugere que as sementes teriam se dispersado
por meio da combinação de correntes marítimas
com grandes vendavais. “A semente da sumaúma tem
uma estrutura similar a uma cortiça que permite com que
flutue na água e também é envolta por uma
paina, que facilita seu carregamento pelo vento”, conta
a pesquisadora do Inpa. Outra possibilidade seria o transporte
das sementes e estruturas vegetativas em troncos de árvores
pelo oceano.
Segundo o outro autor brasileiro do trabalho, Rogério
Gribel, pesquisador titular da Coordenação de Botânica
do Inpa, apesar de raros, esses eventos de dispersão de
espécies em longa distância podem estar contribuindo,
nas últimas dezenas de milhões de anos, para a composição
de florestas da região da América Tropical, assim
como da África.
“Alguns estudos mostram que a vegetação
da Amazônia é composta por grupos de plantas originárias
de outras regiões do planeta. Mas nosso trabalho comprova,
pela primeira vez com base na análise de marcadores genéticos,
que o Atlântico foi realmente cruzado pelo propágulo
de uma espécie vegetal”, disse Gribel.
Os outros dois autores do trabalho são Eldredge
Bermingham e Christopher Dick, que também é professor
da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.
Para ler o artigo Extreme long-distance dispersal
of the lowland tropical rainforest tree Ceiba pentandra L. (Malvaceae)
in Africa and the Neotropics, publicado na edição
de julho da Molecular Ecology, clique
aqui (http://www.blackwell-synergy.com/doi/abs/10.1111/j.1365-294X.2007.03341.x?cookieSet=1&journalCode=mec).
Por Thiago Romero
Agência FAPESP (08/08/2007)