{"id":9042,"date":"2020-11-24T10:59:17","date_gmt":"2020-11-24T13:59:17","guid":{"rendered":"https:\/\/rbma.org.br\/n\/?p=9042"},"modified":"2020-11-24T11:03:12","modified_gmt":"2020-11-24T14:03:12","slug":"vacinacao-inedita-no-mundo-busca-salvar-mico-leao-dourado-da-febre-amarela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rbma.org.br\/n\/vacinacao-inedita-no-mundo-busca-salvar-mico-leao-dourado-da-febre-amarela\/","title":{"rendered":"Vacina\u00e7\u00e3o in\u00e9dita no mundo busca salvar mico-le\u00e3o-dourado da febre amarela"},"content":{"rendered":"<h5>Primeira fase do programa experimental prev\u00ea a vacina\u00e7\u00e3o de 500 animais em um per\u00edodo de at\u00e9 tr\u00eas anos<\/h5>\n<h6>Por FOLHAPRESS\u00a023\/11\/20<\/h6>\n<p>No final do m\u00eas passado, a Associa\u00e7\u00e3o Mico-Le\u00e3o-Dourado (AMLD) come\u00e7ou a p\u00f4r em pr\u00e1tica uma estrat\u00e9gia in\u00e9dita no mundo, resultado de uma ideia surgida em 2017. Fundada em 1992, a ONG fluminense desenvolve estrat\u00e9gias para a preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Naquele ano, o virologista Marcos da Silva Freire e o primat\u00f3logo Alcides Pissinatti, ambos veterin\u00e1rios, se encontraram em um semin\u00e1rio sobre febre amarela em primatas n\u00e3o humanos na Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Freire, doutor em biologia parasit\u00e1ria, hoje assessor cient\u00edfico na Bio-Manguinhos, unidade da Fiocruz, trabalhou por 36 anos na institui\u00e7\u00e3o no desenvolvimento e produ\u00e7\u00e3o de vacinas humanas. \u00c9 especialista em febre amarela.<\/p>\n<p>Pissinatti, formado em 1970 e doutor em biologia animal, \u00e9 o chefe do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ), criado em 1979 para o estudo e a conserva\u00e7\u00e3o dos primatas brasileiros.<\/p>\n<p>Na conversa, os dois viram que era preciso fazer alguma coisa em rela\u00e7\u00e3o ao mico-le\u00e3o-dourado, cuja popula\u00e7\u00e3o certamente seria atingida pelo surto de febre amarela que atingia parte do pa\u00eds naquele ano. O v\u00edrus, transmitido por um mosquito, estava afetando principalmente a regi\u00e3o Sudeste.<\/p>\n<p>J\u00e1 havia relatos de que popula\u00e7\u00f5es inteiras de bugios, saguis e macacos-pregos -esp\u00e9cies que n\u00e3o est\u00e3o amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o\u2013 estavam sendo dizimadas pelo v\u00edrus, mas nada ainda se sabia sobre a incid\u00eancia da doen\u00e7a no Leontopithecus rosalia, o mico-le\u00e3o-dourado, este, sim, amea\u00e7ado.<\/p>\n<p>Os dois pesquisadores ent\u00e3o se perguntaram: \u00e9 poss\u00edvel vacin\u00e1-los?<br \/>\n&#8220;N\u00e3o havia literatura sobre as muitas quest\u00f5es a serem respondidas, e nossa principal preocupa\u00e7\u00e3o era em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a dos macacos&#8221;, conta Freire.<\/p>\n<p>A equipe da AMLD tamb\u00e9m desconfiava que a esp\u00e9cie j\u00e1 poderia estar sendo atingida pela febre amarela; mas encontrar micos mortos para verificar a hip\u00f3tese \u00e9 muito dif\u00edcil. Os animais dormem nos ocos das \u00e1rvores e, como s\u00e3o muito pequenos \u2013pesam em m\u00e9dia 600 gramas\u2013, a decomposi\u00e7\u00e3o dos corpos \u00e9 muito r\u00e1pida.<\/p>\n<p>A confirma\u00e7\u00e3o da suspeita veio em 2018, quando um deles foi achado morto na mata e levado pela AMLD para exames no Rio de Janeiro; verificou-se que havia sido infectado pelo v\u00edrus.<\/p>\n<p>O dano causado pela doen\u00e7a na esp\u00e9cie foi grande desde ent\u00e3o. Na d\u00e9cada de 1970, estimou-se haver apenas 200 animais em vida livre. Os esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o e repovoamento iniciados \u00e0quela \u00e9poca fizeram esse total chegar a 3.700 em 2014. Por\u00e9m, com a chegada da febre amarela, o n\u00famero caiu para 2.500 em 2019, segundo recenseamento da AMLD -uma redu\u00e7\u00e3o de mais de 30%.<\/p>\n<p>Na Reserva Biol\u00f3gica de Po\u00e7o das Antas (RJ), unidade de conserva\u00e7\u00e3o do ICMBio localizada entre Silva Jardim e Casimiro de Abreu que cuida da preserva\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias esp\u00e9cies, a popula\u00e7\u00e3o do mico-le\u00e3o-dourado passou de 300 para 37 indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>&#8220;O mico-le\u00e3o-dourado vive em uma regi\u00e3o bem espec\u00edfica da mata atl\u00e2ntica do estado do Rio, em florestas sempre abaixo de 500 metros de altitude, ele s\u00f3 existe ali. Num espa\u00e7o t\u00e3o limitado assim, o v\u00edrus pode ser uma verdadeira trag\u00e9dia para a esp\u00e9cie&#8221;, explica Lu\u00eds Paulo Ferraz, ge\u00f3grafo, secret\u00e1rio-executivo da AMLD.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram ent\u00e3o, em 2018, trabalhos de pesquisa na Fiocruz e no CPRJ para p\u00f4r em curso a ideia da vacina surgida em 2017.<\/p>\n<p>Os pesquisadores avaliaram durante esse tempo a resposta imunol\u00f3gica nos animais \u2013ou seja, a produ\u00e7\u00e3o de anticorpos- e a seguran\u00e7a da vacina. Dois anos depois, chegou-se a uma f\u00f3rmula segura, que produz imunidade e n\u00e3o causa mal aos animais. \u00c9 a primeira vez que se faz isso com primatas que n\u00e3o o homem.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, 58 macacos j\u00e1 foram vacinados, conta o bi\u00f3logo Carlos Ruiz Miranda, professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes (RJ) e integrante do projeto.<\/p>\n<p>A primeira fase do programa experimental prev\u00ea a vacina\u00e7\u00e3o de 500 animais em um per\u00edodo de at\u00e9 tr\u00eas anos. Dependendo dos resultados, o n\u00famero pode chegar a 1.000.<\/p>\n<p>Todo o trabalho tem acompanhamento e autoriza\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e do Centro de Pesquisas e Conserva\u00e7\u00e3o de Primatas Brasileiros (CPB\/ICMBio), que coordena o Plano de A\u00e7\u00e3o Nacional para a Conserva\u00e7\u00e3o de Primatas da Mata Atl\u00e2ntica e da Pregui\u00e7a-de-coleira.<\/p>\n<p><strong>Vacina usa v\u00edtus atenuado<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de terem usado como ponto de partida uma tecnologia que j\u00e1 existia -a vacina para humanos-, os cientistas n\u00e3o sabiam se ela seria segura nem se seria capaz de provocar imunidade nos animais. Os ensaios foram feitos com macacos em cativeiro, das esp\u00e9cies mico-le\u00e3o-dourado, mico-le\u00e3o-preto e mico-le\u00e3o-da-cara-preta.<\/p>\n<p>Testaram-se basicamente tr\u00eas possibilidades: uma delas usando apenas uma part\u00edcula do v\u00edrus (uma prote\u00edna); outra com o v\u00edrus inativado; a terceira com o v\u00edrus vivo atenuado. Foi esta \u00faltima que apresentou a melhor resposta imunol\u00f3gica nos animais.<\/p>\n<p>&#8220;Nos micos-le\u00f5es-dourados, ela \u00e9 usada numa dilui\u00e7\u00e3o em torno de 1\/150 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 que \u00e9 utilizada em humanos&#8221;, explica Freire, o virologista da Fiocruz.<\/p>\n<p>A pandemia da Covid-19 atrasou um pouco o in\u00edcio da vacina\u00e7\u00e3o. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 estudos sobre coronav\u00edrus em macacos, e n\u00e3o poder\u00edamos correr nenhum risco&#8221;, diz o secret\u00e1rio-executivo da AMLD. Foi ent\u00e3o preciso criar procedimentos para evitar qualquer risco de contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para vacin\u00e1-los, a equipe do AMLD captura os animais na mata e os leva ao laborat\u00f3rio, onde s\u00e3o anestesiados antes de receberem a vacina. Eles s\u00e3o devolvidos \u00e0 natureza apenas no dia seguinte. Os grupos s\u00e3o localizados por meio de sinais de r\u00e1dio emitidos pelos colares acoplados aos animais ou por emiss\u00e3o de vocaliza\u00e7\u00e3o por playback. \u00c9 um trabalho que requer muito tempo e paci\u00eancia, e que as equipes de campo da AMLD, ap\u00f3s intenso treinamento, v\u00eam realizando h\u00e1 mais de 30 anos.<\/p>\n<p>E como se sabe se a vacina teve efeito? &#8220;Entre 30 e 45 dias ap\u00f3s a vacina\u00e7\u00e3o, n\u00f3s pegaremos novamente os animais e faremos novo exame sorol\u00f3gico para avaliar se houve produ\u00e7\u00e3o de anticorpos, ou seja, se a vacina provocou a resposta imunol\u00f3gica desejada&#8221;, explica Miranda. Isso come\u00e7ar\u00e1 a acontecer a partir da pr\u00f3xima semana.<\/p>\n<p>Caso a experi\u00eancia obtenha sucesso, os primeiros animais vacinados ser\u00e3o levados para as \u00e1reas que foram mais atingidas pela febre amarela e onde circulam os mosquitos transmissores contaminados pelo v\u00edrus. Estar\u00e1 assim resolvido um dos principais problemas que afetam hoje essas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E a maior amea\u00e7a \u00e0 esp\u00e9cie voltar\u00e1 a ser a destrui\u00e7\u00e3o das florestas na regi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeira fase do programa experimental prev\u00ea a vacina\u00e7\u00e3o de 500 animais em um per\u00edodo de at\u00e9 tr\u00eas anos Por FOLHAPRESS\u00a023\/11\/20 No final do m\u00eas passado, a Associa\u00e7\u00e3o Mico-Le\u00e3o-Dourado (AMLD) come\u00e7ou a p\u00f4r em pr\u00e1tica uma estrat\u00e9gia in\u00e9dita no mundo, resultado de uma ideia surgida em 2017. Fundada em 1992, a ONG fluminense desenvolve estrat\u00e9gias para&#8230; <\/p>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/rbma.org.br\/n\/vacinacao-inedita-no-mundo-busca-salvar-mico-leao-dourado-da-febre-amarela\/\" class=\"excerpt-read-more\">Leia mais<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":9047,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"slim_seo":{"title":"Vacina\u00e7\u00e3o in\u00e9dita no mundo busca salvar mico-le\u00e3o-dourado da febre amarela - RBMA","description":"Primeira fase do programa experimental prev\u00ea a vacina\u00e7\u00e3o de 500 animais em um per\u00edodo de at\u00e9 tr\u00eas anos Por FOLHAPRESS\u00a023\/11\/20 No final do m\u00eas passado, a Associ"},"footnotes":""},"categories":[49,6,54],"tags":[],"class_list":["post-9042","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mata-atlantica","category-noticias","category-postos-avancados"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rbma.org.br\/n\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9042","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rbma.org.br\/n\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rbma.org.br\/n\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rbma.org.br\/n\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rbma.org.br\/n\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9042"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/rbma.org.br\/n\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9042\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rbma.org.br\/n\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9047"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rbma.org.br\/n\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9042"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rbma.org.br\/n\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9042"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rbma.org.br\/n\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9042"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}